quinta-feira, 10 de novembro de 2011
quinta-feira, 11 de agosto de 2011
Amor,
segunda-feira, 27 de dezembro de 2010
Veio e foi. Natal.
segunda-feira, 9 de agosto de 2010
Yes Woman
segunda-feira, 2 de agosto de 2010
Um Verão assim
sábado, 24 de julho de 2010
Ao Natural
quarta-feira, 2 de junho de 2010
E de repente foi há um ano atrás, Avô
segunda-feira, 17 de maio de 2010
Sentidos de Infância
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010
Era uma vez, outra vez
Aqui estou eu – novamente – decidida a escrever – novamente – algo, não sabia o quê, até me ter deparado com um invulgar pedido.
Não parecia fazer muito sentido, mas então comecei a pensar.
A lembrar...
Sim, nostalgia. E eu nem gostava muito da terrinha. São Salvador. Mas lá que era inspiradora, era. O grande problema sempre foi a falta de um computador, que quebrasse a solidão dos montes verdes e caminhos de terra abandonados. E, não obstante, era eu criança e ingénua, aspirei à grande loucura de começar a escrever à mão, num caderninho de capa preta que usara para a escola mas que só gastara as primeiras páginas, e no qual colara a imagem de uma fada, a qual, recordo, tentei, heróica e falhadamente, pintar num quadro para Educação Visual no ano lectivo seguinte. Assim, aquela terra virou um marco importante.
No Verão que passou devia ter pegado numa máquina fotográfica a sério e ido passear pelos carreiros de ovelhas. Nunca por lá andei. É pena que só me tenha lembrado disto agora. Eu digo e repito que não gosto daquilo, mas quando tiver um cansativo trabalhado e uma vida movimentada na cidade, eu vou passar férias a um sítio como aquele. Longe da civilização. Perto da natureza. No interior de Portugal. Únicos requisitos: computador – muito, muitíssimo importante, não fosse eu uma aspirante a escritora –, iPod – o silêncio, a paz do campo são muito agradáveis, mas a música é a minha alma – e, por certo, a maquina fotográfica.
Ia ser uma pessoa muito feliz assim.
Então, pergunto, porque é que detestava – e suponho que detesto, embora não haja mais férias de Verão em S. Salvador (logo agora que já podia levar um portátil! A vida é injusta) – lá ir? É uma muito boa pergunta. Talvez vá ser ingrata e dizer que era tanto melhor quanto mais sozinha, e o que lá não falta são pessoas conhecidas (e vem dar um beijo à tia, e cumprimenta o tio, e lembras-te da prima? Hã, pois, não, nada mesmo...) A minha mãe diz que sou um bicho do mato, talvez tenha razão. Mas eu quero aquele lugar para escrever, para pensar, para apreciar, e isso faz-me extraordinariamente melhor sozinha. Quando e como quiser. (Eu sou um pouco anti-regras, é verdade, e anti-horários já agora.) Por isso este último ano – privilégios da idade – soube extraordinariamente bem poder ir para onde quisesse. Não que houvesse algum perigo de uma criança andar por aquela aldeia sozinha, mas mães são mães.
Bem, isto está a soar como se fosse maravilhoso, mas leiam o que eu escrevi a princípios de Setembro e verão como não estava nada agradada por lá ir. Não creio que estou a suavizar, realmente parece mais tentador agora. Suponho que seja por estar cansada da rotina, autocarros, escola, trabalhos (sim, vida atarefada). Lá tudo era calmo e sem pressas. Podia lá ir de bom grado uma semana (mas jamais sem o primeiro dos requisitos, porque aquilo ao fim de um dia torna-se um aborrecimento do pior; os livros são – e foram sempre – uma excelente salvação, mas no topo está mesmo a escrita.)
Enfim, da boca para fora eu disse muito mal daquele lugar, mas, dos poucos Verões em que lá fui (felizmente para mim, a minha prima é que vai lá sempre e adora aquilo, eu cá continuo a passar; antes a minha casa e o meu Algarve – e a minha mãe concorda inteiramente comigo, não fosse a avó do norte a paterna) coleccionei um bonito álbum de memórias. Curtas e fotográficas, fazem-me sorrir.
É a minha irmã ainda pequenina a olhar o galinheiro que antes havia em frente da casa, e a pedir para ir ver os burros (algo que pedia todos os anos), e nós a subir e descer as escadinhas de madeira para passar o muro de pedra que conduzia à eira.
E aquele Verão em que fui picada por uma vespa, aquele em que elas se revoltaram contra nós, porque houve mais duas “vítimas” nesse dia. Lembro-me que estávamos a jogas às escondidas...
Houve também uma tarde de temporal, chovia muito e estávamos na cozinha da avó a descascar feijões. A trovoada sobressaltou-nos. Não sei se ainda tinha medo nessa altura. A minha prima sim, muito. Acho que a minha irmã estava em casa a dormir, teria sido na primeira vez que lá foi.
Uma vez também caí da bicicleta que uma rapariga me empresou. Não me lembro dela, mas se tivesse de apostar num nome diria Rita, mas não tenho bem a certeza (se estiver errado aposto que a minha prima fará questão de vir dizer-me). Acho que não a voltei a ver. Mas esse Verão teve bons momentos em boa companhia. O alpendre já estava construído e depois do almoço juntávamo-nos, uns cinco, seis, sete pessoas (eu nunca ia poucas vezes à aldeia, mas a minha prima conhece bem a malta) a jogar Uno. Fazíamos um pouco de batota; somávamos os ‘+2’ aos ‘+4’ e atingíamos valores de vinte e tal cartas para o coitado que tinha de as ir buscar ao baralho.
O meu pai andava sempre com um mata-moscas, porque é a diversão número um para quem não tem nada que fazer, e acreditem que alvos não faltam. Havia uma corda pendurada no alpendre e ele punha-se a contar as moscas que lá pousavam ao mesmo tempo. Chegavam a ser mais de dez. Também me lembro de que o Romão, o cão da minha tia, um dia soltou-se e matou uma galinha de um vizinho. Ele tinha uma ‘namorada’ da mesma raça, com um olho de cada cor, que aparecera lá não ser bem como. Chamava-se Andorinha. Eu fiquei muito revoltada quando mais tarde soube que a minha avó tinha morto os filhotes que ela havia parido.
Este Verão a minha tia, à qual fui ao casamento, já tinha mais outro cão. Não me lembro do nome. Mas também era grande e a minha irmã adorava-o. Acho que tenho uma fotografia dele no telemóvel. E acho que o nome começa por G.
Mas as melhores memórias são as do parque da escola primária, precisamente onde me refugiei, certo final de tarde, para escrever. Já deixei aqui as fotos em Setembro. Mas aquele parque foi mais do que o palco do princípio. Era para lá que ia sempre, com a minha irmã, com a minha prima, com as duas, quando queríamos dar uma volta, brincar um pouco. Somadas, devo ter passado umas belas horas naqueles baloiços, e poucas sentada na posição correcta. Somente que eram mais confortáveis quando virados ao contrário, e eu sei do que falo, porque testamos todas as opções possíveis, até de cabeça para baixo. Quando éramos mais novas, lembro-me da minha prima balouçando muito e depois atirando o chinelo. Acho que tentávamos ver qual de nós atirava mais longe. A minha irmã ia buscar, ou então ela, que não tinha problemas em andar descalça. Uma vez o dela ficou preso na árvore. De alguma forma, conseguimos tirá-lo. Apenas no ano passado entrei pela primeira vez dentro da escola.
E por hoje é isto. Não pretendia alongar-me tanto, não pensara sequer que iria escrever sobre isto, mas soube estranhamente bem. Assim, acabo agradecendo a sugestão. Às vezes faz bem simplesmente parar e lembrar.
Deixamos tanta coisa para trás.
domingo, 31 de janeiro de 2010
Tempo
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
Cansada. Perseguida. Lembrada.
Deveria analisar um poema. Alberto Caeiro. Mas não cola comigo, nenhum dos que estão no livro, pelo menos. Ele tem razão, muita razão. Mas que não posso deixar de pensar, por muito que sinta.
O problema foi o sonho…
Parei num poema e no fim diz: “E não teremos sonhos no nosso sono.”
Se ao menos eu pudesse para de pensar, nem que fosse enquanto durmo…
O toque está mesmo aí. Conto tudo depois, na aula de História.
Hoje não estou aqui. Filosofias a mais para a minha alma. Não hoje.
(…)
São oito e meia da noite. É exactamente isso, não houve oportunidade de escrever na aula de História. O que não significa que esta tenha sido interessante. Na verdade, eu estive todo o tempo lutando por manter os olhos abertos enquanto víamos um documentário sobre a Bauhaus. Foi realmente horrível, por eu tinha a sensação de que se fechasse os olhos por mais de cinco segundos adormeceria.
Não, continuava a não estar ali.
Também não o estava em Direito. A tarde já foi melhor, na escola, certo, mas sem aulas, e apesar de que a nossa sessão de cinema foi um completo fiasco. Mas bom, ainda passamos o filme, que não vi até ao fim, precisamente porque já o vira.
Mas era para falar sobre o sonho…
Quero contar, sim, mas nem sei com que palavras. Teve em parte a ver com ela – esse ela dos outros sonhos. E foi por culpa de andar a pensar no fim do ano. De alguma forma, o meu subconsciente magicou um cenário nem sei bem onde, no qual havia nomes – os nossos, os finalistas – e prendas. Qualquer coisa como eu quero felicitar a pessoa X, então deixo uma prenda no local do seu nome. (Sem dúvida uma ideia absurda que jamais me ocorreria desperta). O que é certo é que eu estava lá para descobrir o que me haviam deixado.
E é aqui que a coisa derrapa. Tragicamente de volta ao mesmo.
Não ia sozinha. A Catarina estava comigo, embora nem saiba porque, e mais outra pessoa, lá por acaso, calculo (ou talvez com a Catarina?). Não importa. Ambos se preocuparam e me perguntaram se estava tudo bem quando comecei a chorar. Obviamente que não o estava. Mas eu não conseguia explicar-lhes porquê.
Demasiado pessoal. Algo que só eu entenderia. Algo que mal recordava. Algo que só uma pessoa poderia ter feito.
Era duas telas pintadas à mão.
A segunda fez sentido então, encaixando como a primeira num realidade que era sonho, não verdade. Não acontecera o que lá estava. Era um reflexo da primeira, quase que um pagamento não hostil, marca por marca, amizade por amizade. Mas eu nunca parti o braço.
Mas a primeira sim. Essa fez correr as lágrimas, porque era verdade. Era uma memória, e o pensamento humedece-me os olhos. E nem sequer posso recordar esse dia. Apenas sei que a fizera cair há muitos anos e que ainda hoje tem a marca no joelho. Não era para ser um quadro artístico. Eram somente dois pares de pernas, uma delas com a calça subida e uma tira branca em volta do joelho ferido. Talvez houvesse mãos preocupadas, não sei.
O que sei foi que me quebrei em lágrimas. Não via aquilo como tendo implícito “tu fizeste-me isto”. Não.
Era uma amiga que nunca se chateou com a outra mesmo quando a fizera cair.
Amigas que mal se vêm, que há séculos como dias não se falam.
Não, ainda não lhe disse nada. Não sei se o espera e temo que nem o queira. Não o que lhe diria pelo menos – se o pudesse diz. Não me vim queixar tampouco. Apenas precisava de contar.
Apenas precisava de lembrar.
As crianças que um dia fomos…

sábado, 24 de outubro de 2009
Adrenalina
Ascendendo, o céu. O ar no rosto. O vazio assustador debaixo dos meus pés. E caímos.
Não havia porquê de eu gritar. O estômago formigava numa agradável sensação. Acabou demasiado depressa. Realmente muito rápido. Teria ficado muito mais.
Depois o riso. Passos cambaleantes. Euforia.
Os meus segundos de libertação. Voara. Fora livre. Mas acabara.
Ela odiou-o? Eu amei-o. A ausência de matéria, a ausência de pensamentos.
Perfeição. Efémera perfeição de ser. De estar...
Adrenalina.
terça-feira, 13 de outubro de 2009
E depois de amanhã
Somente um querer, um desejo de futuro ideal.
Não, sou-o. Sou mesmo? Há quem diga quem sim. Mas o que quero mesmo é poder afirmá-lo quando daqui a uns anos alguém perguntar “Qual é a tua profissão?”
Agora a pergunta é “O que queres ser?”, ou então, “Que curso queres tirar?” Bem, a resposta não é mesma. Há muito tempo que percebi que queria escrever literatura a sério. Suponho que é daquelas coisas que estão destinadas desde logo. Como quando o pai olha para o filho pequeno brincando com uma bola e diz “quando for grande, ele vai ser jogador de futebol”.
Nunca ninguém me disse em criança que iria ser escritora. Talvez porque tenha deixado a minha imaginação vagar por caminhos mais secretos. No meio do nada onde vivo, não tinha vizinhos, ainda não tinha irmãos. Cresci brincado sozinha. E sozinha jogava ao faz de conta. Tinha montes de amigos. Era dezenas de personagens. Tinha até uma lista de nomes!
Sim, eu tinha essa alma imaginativa que do nada cria lugares e situações, todo um enredo, toda uma história. Alma de criadora. E depois, algures pelo meu percurso escolar, descobri que adorava escrever. Acho que primeiro descobri que queria escrever. Recordo-me no meu velhinho computador, tentando dar corpo às ideias que se construíam na minha cabeça. Era cedo demais. Eu queria escrever antes mesmo de saber escrever, pelo menos com correcção e eloquência. Tive que esperar. E ainda assim comecei cedo demais, suponho. Mas isso foi bom. Aprende-se com os erros, certo? Então não importava que tenhamos de reformular e reescrever a mesma história duas ou três vezes até que atinja o mínimo de qualidade.
Esse foi o caminho que eu escolhi.
Penso que antes era como um sonho de criança. Algo que queria tornar real. Escrever uma história, que orgulho! A verdade é que não cabia em mim de contente quando realmente acabei. Agora olho para ele e é somente um rascunho mal escrito.
Quero mais. Fiz mais, então quero alcançar ainda mais. Deixou de ser um desafio, para passar a ser um projecto de vida. Deixou de ser um passatempo para ser uma paixão. E quero que deixe de ser um hobby para ser um trabalho. A tempo inteiro.
Eu quero realmente essa vida de três, quatro meses em frente ao computador, dias inteiros, e logo após outro mês de revisão, discussão, e afins. Não quero sessões de autógrafos ou cartas de fãs. Quero somente ver um livro meu numa livraria, vê-lo nas mãos de alguém, apaixonando outros para além de mim.
Sim, eu quero ser escritora.
Mas qual é o curso que se tira para isso?
sexta-feira, 9 de outubro de 2009
Criança
Fiz um acto bondoso hoje. O quê não importa. Já não somos essas crianças.
Mas há sonhos que persistem.
Ontem fui arrumar uma moderna caixa de recordações. Incrível o que se acumula nos ficheiros recebidos de um computador com o passar dos anos. Muitas memórias. Nenhuma exclusivamente minha. Tudo sonhos partilhados.
Encontrei uma história. Uma página e meia do que seria uma história, escrita há três, quatro anos, por mim e uma grande amiga. Era uma projecção fantasiosa da nossa vida, aquilo que queríamos que ela fosse. Um sonho que foi deixado com reticências, nem posso recordar porquê, para sempre à espera de ser continuado, empurrado para o esquecimento por projectos individuais.
Éramos crianças. Ou melhor, pensávamos ainda como crianças. Quem sabe se não pensamos ainda. Às vezes. Muitas vezes. A cada momento em que ponho de lado o eu para viver cada linha que surge velozmente no ecrã do computador.
Nessa horas eu sonho acordada, tenho esperança, acredito nessa fantasiosa promessa de algo mais que o mundo real não pode dar. Inocente, tão inocente!
Criança. Eternamente criança.
Nessas horas, eu sei dizer o que é o amor. Acredito nele. Sei o que significa lealdade, conforto, amizade. Sei encontrar a perfeição em vidas imperfeitas. Posso dizer todas as palavras que nunca direi. Posso saber com toda a certeza o que me espera amanhã.
Não, hoje a montanha-russa não voltou a descer. Felizmente.
Por agora, apenas chegar a casa. Esta mulher com alma de criança, que escreve negro sobre o branco.
segunda-feira, 5 de outubro de 2009
Aqui
Enfim, estou cansada. Preciso de outro fim-de-semana, um que não implique viagens relâmpago como alguém tão bem o apelidou. Mas a escola espera-me amanhã. Iupi! De volta à bela rotina de não sei para que lado me virar, não sei com quem falar, não sei se estão chateadas ou não. Veremos amanhã. Talvez o fim-de-semana tenha aliviado o ambiente (as coisas não parecia negras naquelas mensagens de parabéns, mas quão bem pode uma pessoa fingir naturalidade?) De qualquer forma, é essencial que chegue a horas à rodoviária. Mais não seja porque não quero ficar apeada.
Vou pensar seriamente em deitar-me cedo. Por outro lado, queria acabar o livro… Acho melhor apressar-me.
Partida
(...)
Estou com dores. Maldita mensal bênção feminina! E fora isso também não me sinto lá muito bem. O estômago parece reagir defensivamente em relação à comida, como uma tensão que sempre precede o conflito. Graças a Deus não enjoo com tal facilidade. E o Mercedes é um bom carro, confortável para dormir acima de tudo. Pena que agora venha substancialmente mais cheio, mas terei que suportar isso. Desconfio que vá ser um longo dia. Sem mais escrita; guardar o iPod para ler. Estão a chamar-me. Logo a noite estarei num computador. Por esse alento sobreviverei.
quarta-feira, 9 de setembro de 2009
Regresso
Acabei de sair de São Salvador – para as mentes menos informadas, a aldeiazinha do norte de Portugal a que carinhosamente apelidei de fim do mundo. Inicio a viagem de volta ao meu adorável Algarve. Só lá devo chegar a meio da tarde. Mas para a despedida, há memórias que ficam. Os galos cantando pela madrugada, nunca antes os ouvira em toda esta semana; várias gargantas num eco dissonante a saudarem o novo dia. A brisa fresca rompendo o torpor de uma má disposição crescente, ainda nem eu entrei no carro. As malas descendo até ao carro, deixando a casa vazia como se ninguém lá habitasse. A porta da entrada fechando sob a minha mão como um livro cuja história acabou, sem tristeza nem nostalgia, talvez até com algum alívio. Os sacos sendo carregados, enfiados onde ainda há espaço: batatas, cebolas, nozes, alguma fruta; pedaços deste mundo que se dão e se levam quando nada mais pode vir. As lágrimas nos olhos de uma mãe que fica e de um filho que parte, brotando a saudade nesta distância que cresce, florescendo por meses, quiçá anos, até um novo reencontro. O carro que por fim corre as suas de outro século, cruzando casas de outros tempos em que subsistem gentes deste; e ei-las no velho banco da paragem esperando o autocarro que já lá vem; é vermelho e moderno, não encaixa nas paredes de pedra e na calçada irregular; talvez por isso não suba e se fique pela boca da aldeia onde a estrada é alcatroada e as casas de tijolo e pintura branca, como as nossas. E continua o carro, galgando os quilómetros nas curvas e contra curvas deste relevo acidentado. A paisagem de agricultura em socalcos é uma imagem que ficaria bem no meu antigo livro de geografia. O ar entra pela janela, o meu estômago está vazio, mas um subtil enjoo prospera. Suponho que esta seja a altura para uma pausa.
8:27
Lembrei-me de uma coisa: eu não olhei para trás. Toda esta história de despedida traz consigo um certo déjà vu e eu recordo-me que, há três anos, enquanto o carro se afastava da casa do meu tio onde sempre ficamos, eu olhei para trás, como que para gravar essa última imagem. Mas não creio que precise de mais. Na imortalidade deste canto do mundo, qualquer antiga memória se funde com as mais recentes num quadro prefeito porque lá nada parece mudar.
10:31
Saio agora da Guarda. Aqui parámos para o pequeno-almoço. Estava enjoadíssima. Agora estou um pouco melhor. As estradas onduladas ao sabor das montanhas ficaram para trás. Não dormi como gostaria mas, tendo em consideração que, quando abri os olhos em frente ao café, me apercebi que a música no iPod acabara sem que me desse conta, deveria estar já a roçar a inconsciência e sem dúvida que adormeceria se não tivéssemos parado. O sol banha-me de calor, é um verdadeiro incómodo. Gracejo a frescura e escuridão dos dois túneis pelos quais acabámos de passar, mas, e ora vejam a ironia da expressão, foi sol de pouca dura. Apetecia-me ler mas não só não me é aconselhável como a estrada é tão boa que sinto o carro aos solavancos e seria impossível ler com as letras aos pulos. Talvez agora com o comprimido para o enjoo devesse tentar dormir mas passou-me a vontade, o que é uma pena. O tempo passa mais depressa quando não estamos conscientes de cada movimento do relógio.
19:40
Estou em casa há mais de duas horas. Era suposto ter escrito mais qualquer coisa pelo caminho, mas depois de ter parado em Évora para almoçar não mais me senti enjoada ou a sufocar. Vim o resto do percurso a ler. Enfim, deu-me a preguiça para a escrita e agora que aqui estou, computador já ligado, sinto-me simplesmente bem. Em casa.
PS: Quando à foto do casamento, ponho-a quando me chegar às mãos. Tudo depende da rapidez com que trabalham os fotógrafos no norte deste nosso país de nome Portugal.
Casamento
Enfim, andei o dia todo para escrever alguma coisa e nada. Não por me estar a divertir, julgo que apenas não surgiu a oportunidade. Talvez por parecer mal, não sei. Essa foi sem dúvida a razão na Igreja, porque eu estava a ponto de me deixar dormir. Deus! Ainda bem que eu nunca vou casar pela Igreja. O discurso do padre foi uma valente seca. Admito, não sou fã da Igreja Católica e apanhei umas quantas do padre que deram vontade de revirar os olhos. Para esclarecer, Cristianismo sim, Catolicismo não. Para mim, a Igreja é uma valente fantochada. Tão cheios de amor por Deus e pela Sua palavra e depois basta entrar numa Igreja para ver que nem sequer sabem interpretar uma das partes mais claras da Bíblia. Não repreendera Deus os hebreus por adorarem um bezerro de ouro? Não faz parte das Suas leis não adorar estátuas? Então o que fazem todos aquelas imagens mórbidas de santos e de Cristo pregado na cruz? Por amor de Deus! Resumindo, não achei piada nenhuma à cerimónia. Não acho que aos olhos de Deus um matrimónio se consagre comendo pão e bebendo vinho (um gole pequeno porque o resto é para o padre). Nem sequer houve beleza nas palavras de sempre, eternamente repetidas, embora os cânticos até não fossem maus, ainda que mais do mesmo. Definitivamente, eu não quero jamais algo assim. (Conveniente nem o poder por não ser sequer baptizada.) Sinceramente, nem sei se quero casar. A cerimónia vale zero para mim, o mais bonito são o vestido e as fotografias, dá tudo um trabalho dos diabos e custa uma fortuna! Não, muito obrigada.
Mas não era isto que eu queria começar por dizer. Afinal, saltei a parte em que fui arrancada da cama para tomar banho e de como no final pude sorrir e orgulhar-me. Sim, porque hoje eu sentia-me bonita e nada tinha a ver com o vestido. Gostei de como a maquilhagem realçou o meu olhar e de como o cabelo enquadrou o meu rosto. Não sabia realmente o que fazer com ele, mas felizmente não tive de me esforçar muito para que me agradasse. (Deixo depois uma fotografia para os curiosos!) O outro problema que me atormentava pela manhã era como ia aguentar todo o dia com os sapatos. Não houve propriamente uma solução para isso, apenas passar mais de metade do dia sentada. E no entanto doíam. Enfim... Já me dou por feliz por não ter experimentado o chão. Porque a calçada é o Inferno dos saltos altos e o calceteiro aqui da aldeia era o próprio Diabo! E, embora seja perto, o caminho da casa da noiva à Igreja é uma armadilha. Eu fi-lo quatro vezes. Uma experiência a tentar não repetir.
O raio do rádio ainda toca lá em baixo. São 3:40. Deus, será que ele não dorme? Eu já que agradecia. Por alguma razão, sinto-me bastante cansada. Não me tenha movido muito. Nem uma música dancei, e culpo a música, não os sapatos. Muito bom para quem aprecia o género. Eu não. Mas não foi mau de todo; a comida era boa, e entre água, sumo, cola, sangria, champanhe e algo delicioso e alcoólico para cortar o sabor entre os pratos, acho que bebi mais do que comi. Mas sinto-me bem. Tirando o peso das pálpebras. E por aquela foto linda, o dia valeu a pena! Estou a brincar, claro, mas gostei de uma fotografia minha sozinha que o fotógrafo se lembrou de tirar. E isso é coisa rara. Eu costumo odiar as minhas fotos. Mas hoje estávamos bonitos e felizes... excepto a minha prima que a certa altura que lhe deu para o amuo e a impertinência. (Ups, ela vai ler isto! Azar!) Foi... apenas um casamento. Como um casamento deve ser. Feliz. E espero sinceramente que essa felicidade dure.
Acho que agora vou tentar dormir. O rádio continua mas os olhos estão demasiado pesados. Raios, faltam dois minutos para as quatro da manhã! Um...
Talvez fique com a minha música. De olhos fechados. Quatro horas. Boa noite!
6-Setembro-2009
