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domingo, 9 de setembro de 2012

Tempo

O tempo é uma dimensão rara do ser. A velocidade a que se criam memórias é uma eco vago no plano da consciência distorcida, em eterno processo de regressão, que transforma as melhores horas da nossa vida na mera certeza de terem acontecido. As provas são fúteis. Não há pedaço de papel pintado a luz que reacende a vida com tanta intensidade como um imaculado sonho revivalista que a nossa anatomia não nos permite ter, nem no segundo imediato ao acontecimento. O passado é nevoeiro. É o diz que disse e a recordação distorcida da nossa visão subjectiva. É um consolo pobre mas suficiente, tão desgraçadamente suficiente para ainda arrancar lágrimas ou sorrisos, mesmo que errado, errante e destruidor. Porque é igualmente capaz de produzir saudades, perigosa nostalgia do ser que se sente inadvertidamente atraído por um tempo que não pode recuperar, mal pode recordar e jamais poderá transformar. E esse estágio de arrependimento ou melancolia entranha-se, não se estranha, e vira as prioridades da nossa alma progressiva no sentido da auto-destruição. O tempo é uma dimensão suicida do ser. Aquela em que a felicidade está dependente de uma história já gravada em pedra, que se deteriora e esvaísse como areia ao vento. 

terça-feira, 6 de março de 2012

Extrapolação da alma

Quando me beijas, os teus olhos trazem a memória do dia em que morremos.
Na chama deste lirismo apagado, jaz o desejo de esbofetear o desprezo a que me relegas todas as noites. Torturas-me lentamente, assim, inerte no teu canto, como se o meu sofrimento não te tocasse. Não fui eu quem te traiu quando decidiste provar o mundo. Jamais te menti, fiz minhas as tuas palavras, vivi os teus sonhos, caminhámos lado a lado durante anos, de mãos dadas, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença. No silêncio, criávamos um mundo onde seriamos felizes para sempre.
E então a lua pôs-se sobre o teu coração, pegaste fogo às páginas do nosso romance e atiraste três vezes contra mim, desenhando no meu corpo umas monstruosas reticências às quais acrescentei um tenebroso ponto de interrogação. Mas como se não bastasse, não só te desapaixonaste, como reencontraste a nossa paixão noutros braços, uns que te agarram de verdade, e não com um suave sopro de imaginação. As minhas mãos fundidas nas tuas não poderão nunca rivalizar com essas mãos de carne e osso e vida que descem quentes pelo teu ventre, ou essa boca que se beija com uma intensidade que não poderei. Mataste as borboletas que eu largava no teu estômago e substituíste-as pela pulsação forte e urgente do desejo carnal.
Mas ainda te quero como uma esposa violentada pelo marido que não sabe viver sem ele. Porque sem ti sou mera imaginação incompleta, mais vazia e abandonada que um livro decadente esquecido numa biblioteca. E sei que me queres também, nessa tua culpa salgada que te atormenta a consciência sem todavia sentires qualquer arrependimento. Jamais voltarei a ser uma prioridade na tua vida. Não quando o mundo fora das quatro paredes do nosso quarto chama por ti com promessas de amor. E sempre que voltas, é amargo e estranho, como se já não soubesses viver comigo, como se não pudesses nem recuperar uma réstia da paixão que nos alimentou durante tanto tempo.
O mundo seguiu o caminho do tempo, e tu foste com ele. Partiste, trocaste-me, e já nada voltará a ser o mesmo. Agora trazes para a cama o sabor e as cores reais da vida.
E eu observo-te da prateleira com inveja, todas as noite, porque nunca fui capaz de te fazer feliz assim. 

terça-feira, 11 de outubro de 2011

a queda dos anjos

O tempo passa e tudo permanece igual por aqui, numa inconstância angustiante que de anormal se vai tornado a realidade de cada dia. Aveiro morre lentamente dentro de casa. As ruas tingem-se de uma melancolia que escorre pelas janelas. Um frio insípido arrasta-se pela superfície da pele, resistente e insistente. Já houve mais gargalhadas a reverberar nestas paredes. Agora, as conversas são pontuadas por pesados silêncios e olhares incertos. A cidade calou-se para ouvires a tua consciência estrangulada e o teu coração despedaçado. São outras estas mãos que te amparam, são tudo o que tens nesta página da vida. E o dia desenrola-se, a noite desaparece, e o calendário consome-se. Aprendemos a sobreviver assim, com o melhor do que nos dão e o pior do que fizemos com isso. Porque os erros sucedem e a injustiça existe, o mundo é quadrado e a mente humana triangular. Choremos a rir. Estamos a perder os melhores dias da nossa vida.

domingo, 21 de agosto de 2011

Nós.

O sonho era o mesmo todas as noites. Eu. Tu. A vida.
Com tão poucas e fortes palavras, não resta nada mais para dizer. Porque podemos andar às voltas, como luas em órbita, deixando um rasto de literatura, mas, no final, as palavras que ditam o nosso destino vêm sempre sozinhas: Sim. Não. Amo-te. Adeus. Fim.
Os testamentos são para os mortos. Em vida, as palavras devem ser contidas, directas, assertivas, verdadeiras. Quem se perde em rodeios, perde tempo, perde horas de vida e anos de felicidade. Mas, por vezes, é tudo o que existe.
Temos esta necessidade infantil de querer encher de palavras o silêncio. O amor expressa-se no prazer que duas almas sentem ao partilhar um momento de silêncio. A verdadeira verdade não precisa de palavras para se expressar. Mas todas as mentiras nascem nas palavras.
Lê em silêncio. Escrevo em silêncio. A literatura é a voz muda dos sonhos.
E todas as noites partilhamos este mesmo sonho. Eu. Tu. A vida.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

desenharam o mundo com linhas rectas

Quando a vida não encaixa,
ah, quando as nossas palavras se juntam numa figura disforme que não cabe na forma perfeita de um círculo, e o seu significado não tem o equilibro certo de um triângulo equilátero, nem a rectidão de um quadrado
apenas as lágrimas preenchem as covas do nosso rosto com uma naturalidade quase divina.
Mas não há nada de divino em chorar. É o mais humano, humilde e inferior caminho a que a vida nos pode levar. É onde as cores se borram, as formas se desfocam, as palavras perdem o sentido e as emoções se confundem.
É onde o mundo é quadrado e nós estamos à beira do precipicio.
Não há gravidade. Mas é tudo grave.
E o encaixe perfeito entre dois corpos,
ah, duas luas em fases opostas, tão distintas mas tão correctas, como a negação do nunca e a afirmação do para sempre, aconchegadas assim, no interior da forma perfeita do eterno ciclo
é desfeito pela actuação do tempo sobre a vida.
Mas o amor subsiste, como forma sem forma e sem cor, desenhado com agulhas sobre um coração de pedra, cheio de palavras que tiram o sentido às emoções e emoções que confundem as palavras.
A perfeição da vida foi derrubada pela lógica, pela razão e pelos teoremas matemáticos.
Já nada encaixa sem oposição nesta realidade. Não agora que o mundo foi desenhado com linhas rectas.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

STOP

Senta-te. Pára. 'Pára' à moda antiga, para distinguir bem as coisas. Não interessa o 'para', o 'para' é a finalidade última que quase ninguém conhece quando faz as coisas. Daí ser preciso parar. Portanto dá ênfase à necessidade e pára. Não importa porquê ou para quê.
Pára e pensa. Quantas vezes é que eu te contei esta história?
Ah, ainda não te disse qual. Bem, é a tua história. Ou a minha. Ou a dele.
Começou com alguém que se esquecia consecutivamente do acento no 'para'. Quando a finalidade grita muito alto e não surgem sinais vermelhos hexagonais de STOP na nossa vida, quando o destino se impõe com demasiada força e violamos o direito de passagem àqueles que se cruzam na nossa vida, o caos acontece e o acidente é inevitável. À primeira, raramente é fatal. Depois, os outros ganham medo. E da próxima os estragos tornam-se permanentes.
E o culpado?
Pára, senta-te e pensa. Quantas vezes contaste esta história?
Quantas vezes ultrapassaste os outros sem teres esse direito? E quantos atropelaste mesmo?
Quantas vezes te esqueceste de olhar para o lado? E quantas vezes excedeste a velocidade?
Eu, muitas. Demasiadas.
Mais do que me pude aperceber.
Mas, e tu?

Senta-te, pára e pensa.
Talvez o código não sejam ensinamentos de condução. Talvez seja uma lição de vida.

sábado, 2 de julho de 2011

Faz falta

FAZ FALTA AMAR todos os dias
e a cada dia FAZ FALTA AJUDAR
FAZ FALTA SONHAR todas as noites
e a cada noite FAZ FALTA ACREDITAR
FAZ FALTA AGIR todas as manhãs
e a cada manhã FAZ FALTA SORRIR
FAZ FALTA AO MUNDO pessoas com fé nele
e ao mundo FAZEM FALTA PESSOAS COMO TU

domingo, 19 de junho de 2011

Viagem

A vida segue o mesmo caminho, independentemente das pessoas que se cruzam contigo. A vida segue o mesmo caminho independentemente dos desvios que fazes, das colisões, das paragens.
A vida segue sempre o mesmo caminho.
Mesmo que cada dia pareça diferente, melhor ou pior, enquanto a vida for vida, ela segue o mesmo caminho, religiosamente cronometrado pelos rigorosos ponteiros do relógio.
O destino, só o destino o sabe, e o meu caminho só igual ao teu se caminharmos lado a lado, mas a vida, a vida percorre sempre as mesmas estradas, tropeça nos mesmos buracos, é tentada pelos mesmos atalhos.
E como numa viagem, meu amigo, mais importante que o meio de transporte em que viajas, são as pessoas que te acompanham.

sábado, 11 de junho de 2011

Um + Um

Desliga-te de ti e ouve-me. Desliga-me de mim e deixa-me escrever a certeza imparcial e impessoal do amor. Corta os cordões com que ele mexe o meu coração, por uns minutos, só por uns minutos, e deixa-me divagar sem acusações sobre o calor da presença e o frio da ausência, a temperatura errada, a mão manipuladora da distância, o exagero das saudades, a ampliação dos sentimento quando filtrados por esse espectro a que chamamos amor.
A vida rebola à flor da pele e os sorrisos são tão fáceis neste pedaço iluminado do mundo. Os pensamentos giram como satélites em orbita à volta deste porto seguro, soprados ocasionalmente por distracções, mas atraídos invariavelmente de volta pelo teu campo gravitacional. As horas são de uma subjectividade quase absurda quando a incógnita de todas as equações que regem o universo se resume a cinco letras. E se há demasiadas vozes que se erguem, a bolha encerra-se como um casulo de borboleta e caímos no erro de ignorar que realmente há um mundo lá fora que espera algo de nós. Sempre que fechamos a porta, erguemos essa barreira que altera as leis da natureza, impondo uma nova ordem onde um mais um não são dois.
Mas um mais um são dois. 99% do tempo.
Quem não o sabe, quem não o compreende, também não ama essa unicidade que defende. Porque se esqueceu de se amar a si próprio primeiro.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Teorema errático

Errámos no dia em que dissemos que assim estava certo. No dia em que dissemos este caminho é melhor. Mais perto. No dia em que ficámos em casa. Em que ficámos calados.
Errámos quando dissemos sim e quando dissemos não. E quando não dissemos, não foi quando não errámos, mas quando mais medo tínhamos de errar.
Hoje, esta canção é para ti que choras, entre os lençóis, com a cabeça enterrada na almofada, a moer os erros que nem soubeste que fazias.
Essas lágrimas são de um arrependimento casto num corpo gasto, cheio de um rancor imerecido para com a vida e de uma saudade estúpida das pessoas que te fazem mal.
A inconsciência é o mais inocente dos erros, mas o mais difícil de superar. Não compreendo porquê. Apenas que a intencionalidade arrasta uma carga de maldade que vai de encontro à veia masoquista que cada um guarda, ou toca igualmente o lado maldoso que se quer ocultar, e pela nossa própria despenalização se esquece a culpa dos outros.
Mas errar, de facto, todos erram.
Como é injusto que o pior e o melhor do mundo sejam as pessoas!

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Guarda-me, estranho

Mantém as portas do inferno fechadas, mantém-nas assim para mim. Quero que outro fogo me consuma as lágrimas e me aqueça por dentro. Quero outra chama a lamber a minha pele.
O sorriso que encontras nos meus lábios esta noite, estranho, é produto da ilusão póstuma do homem. Quando um corpo se encontra demasiado seco, ele racha e rasga, ele quebra-se e sorri para ti, com uma dose ácida de ironia inútil. Mas segue sendo, de uma forma macabra e necrófaga, objecto de paixões incondicionais.
Por isso, estranho, cuida bem deste invólucro ainda inspirante e expirante, ainda doce e sem fendas, mas muito frágil perante os embates da vida. Cuida dele como da tua alma, mantém-no longe do inferno. Apesar de tudo, é somente carne para combustão. E apesar de tudo, precisamos dele.
Há uma caixinha lá dentro, entre vísceras e fluídos, que guarda estes pensamentos, que guarda a memória do teu rosto, estranho, e este improvável afecto por ti. E se o corpo quebra, ela foge como borboleta aprisionada num frasco. Para não voltar jamais.
Assim, estranho, mantém-me quente, mantém-me viva, guarda-me aqui. O sorriso que encontras nos meus lábios esta manhã é tão somente o mais puro reflexo do teu.

domingo, 3 de abril de 2011

A memória é o portal dos cegos

Já sentes a culpa como uma comichão debaixo da pele, puta, e é o toque quente dos lábios anteriores que persiste na tua boca. Ele ainda não te tocou, mas o pecado já é teu. Ele ainda não te fez sua, mas tu já és dele. E esta noite, não vão ser só dois corpos a dividir uma cama. Porque arrastas contigo a densa memória da liberdade para dizer que não.
Esta noite, puta, estás acorrentada às tuas próprias fantasias. Não podes fugir, é inútil teres medo, é estúpido lutar. Sabes que vais acabar por querer dizer que sim. O arrependimento há-de acompanhar-te sempre, mesmo quando caíres de joelhos a gritar de prazer. Não é esta a vida que eu escolhi. Vais querer-te noutra cama, noutros braços, onde pelo menos alimentas a ilusão de exclusiva pertença. Vais remoer a noite toda, puta, e bater de cabeça contra um único e sólido argumento. Tu não és de ninguém.
Não virás chorar nos meus braços, não. Eu avisei-te que jogas um jogo perigoso, e não há como excluir a nossa consciência dos nossos próprios segredos. Ela estará lá para te julgar quando mais ninguém o puder fazer. Não compreendes, puta. Andaste cega durante todo este tempo, e agora que abriste os olhos, estás demasiado acostumada ao mesmo erro para saltar o buraco que se atravessa à tua frente. Pensavas que era o melhor que poderias ter, e então surpreenderam-te. Agora enfrentas a tentação por um sonho que não crês ainda ser real. Mas, puta, reflecte sobre as tuas memórias e verás, na tua cegueira, que está lá tudo o que precisas de saber.
A solução jaz na diferença básica entre um e dois, entre dois e três. Mas sempre precisas que te digam tudo na cara, mesmo que sofras com o estalo da realidade e do tempo perdido a apreendê-la. Tens demasiadas dúvidas e apostas nas cartas erradas. O teu instinto é absolutamente visual, e por isso tão cego. E o teu coração, puta, ele mantêm-se calado, tão fechado e receoso como a tua boca é aberta e obsessiva.
Esta noite, puta, não vais voltar a dormir sozinha. Mas e amanhã, terás outra vez aquele sorriso na cara?

domingo, 20 de março de 2011

Mortal

Tu és o ar que eu respiro, tóxico e venenoso. As mentiras que eu digo, cruéis e afiadas, como um punhal entre as costelas. Tu é o reflexo do espelho, triste e abandonado, igual a mim.
Tu é a mancha de gordura na toalha do meu dia. As palavras amargas que alguém disse. És a verdade nua e crua que eu projectei.
Tu és a merda que eu pisei. O lixo que eu apanhei pensando que era de valor. Tu és tudo o que de pior há em mim, tudo o que eu quis esconder, tudo o que eu fingi que não existia. Tu és a minha história escrita ao contrário.
Tu és aquela que eu não quero ouvir. Tu és aquela que me dá nojo ver. A escória, a reles, a meretriz, a que sempre invejei. Tu és a podridão que me invade a alma.
Mas quando a noite cai, é contigo que eu sonho, agarrada a mim, como estilhaço de uma vida violada. Sufoco com a memória do teu cheiro, a ardência do teu calor, e grito.
És a morte nas minhas veias.

domingo, 13 de março de 2011

Arranca-me o coração e dá-o a comer aos pobres

As minhas mãos fedem com o cheio de vidas queimadas.

As malas então no chão e o bilhete no lixo. A viajem acabou aqui, na hora da partida. O comboio ainda não chegou, mas o meu corpo já jaz desfeito nos carris, despedaçado pelo choque frontal com a vida. O meu rosto está voltado para o céu cor de sangue. Estas lágrimas são doces.

Na plataforma, ninguém me vê. O ar está cheio de um silêncio murmurado, uma ansiedade borbulhante, uma antecipação febril pelo encontro com o futuro.

Levanto-me, reunindo todos os fragmentos de mim, sem esquecer o coração, músculo cansado por anos de esforços vãos, e resistindo à tentação de deixar para trás as mãos, armas do pecado. Não levo as malas. Não preciso delas.

À meia-noite em ponto, uma mendiga vai coxear pela plataforma, em busca dos bancos protegidos por painéis de vidro, onde poderá dormir mais aconchegada, e ficará feliz por encontrar as malas abandonadas. Isto se outras mãos gananciosas não as tiverem levando antes.

Ainda assim, a possibilidade de uma boa acção acalenta-me a alma. Ponho cada esforço desde corpo na árdua tarefa de avançar em frente, ao longo da linha. O ar arranha-me a garganta e a cor brilhante do céu faz-me arder os olhos. É fogo divino, consumindo as minhas memórias negras.

O comboio aproxima-se. Não há obstáculos à sua frente desta vez. Não, ele já levou a minha vida antes. Seria cruel levá-la de novo.

Vejo-o passar, como o sonho de um futuro que se perdeu. Não pára. O mesmo comboio nunca pára duas vezes na mesma estação. Ou agarras a oportunidade à primeira, ou juntas-te a mim, sentada no chão, no final da plataforma, fitando a cidade que morre tão lentamente como tu, cobrindo-se de um cinzento cada vez mais enlutado.

Inspiro fundo o ar viciado e fecho os olhos. Penso.

Não matei. Não traí. Não roubei. Mas o meu coração é um destroço pulsante de vida e o mundo parece todo vermelho. As minhas mãos ainda cheiram a queimado. A minha alma ainda se encolhe perante a luz.

Porque tu mataste, traíste, roubaste. E eu estava ao teu lado e não fiz nada.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Ópio

Deixa-te caminhar para esse delírio ardente que são as ilusões de uma vida a três: eu, tu e o mundo condensado, desfeito em pó, soprado nos nossos olhos até nos cegarmos com as cores da paixão, negro e carmim; sangue é vida. E a vida é assim.
Sente como o coração bate célere, como se perseguisse o último comboio para a terra da perfeição, tão forte e seguro, mas tão desesperado e assustado, ainda assim tão cheio de esperança que quase rebenta, gritando uma batida atrás da outra, no ritmo frenético de uma ataque cardíaco.
As pálpebras tremem e a visão desfoca; estas cores são mais belas. As lágrimas brotam num sorriso louco, enquanto as letras se misturam e o amor e o ódio fundem-se numa palavra apenas; quando nada faz sentido é que tudo tem sentido. A realidade não importa; não importa saber se é mesmo a realidade. Sonhamos que somos uma flor, ou somos uma flor a sonhar que é humana? As flores não sonham, diz-se. Mas só o saberíamos se fossemos flores...
As mão tremem e o verão e o inverno começam a sua disputa arrojada nas veias e artérias do nosso corpo, como o bem e o mal das história para crianças. Carregamo-los a ambos dentro de nós, o puro e o impuro, o sangue que cura e o que envenena; vida e morte num ciclo intermitente dentro de nós. Vermelho e azul, como calor e frio, como esses suores que se alternam, vestir e despir, arder e congelar, fazer amor e definhar na solidão.
E quando o mundo inteiro torna o nosso corpo o campo de batalha para a sua guerra, estamos em posição para erguer a bandeira branca e partir em busca do nosso próprio delírio. Fazer as estrelas brilharem de dia e o sol de noite, inverter os pólos e pagar em pedras o ouro; riscar todas as palavras do dicionário e inventar uma nova linguagem; fechar os olhos para acordar e abri-los para dormir. Rir dos nossos próprios medos. É tão fácil esquecer o que nos dói quando rimos... É tão fácil esquecer que um dia tudo isto vai acabar.
E então vibramos na insanidade de segurar as nossas vidas nas mãos por uns momentos, olhar o mundo de frente com desdém e desafio, como se o pudéssemos obrigar a reagir, a mudar de atitude. Como se ele ainda pudesse aprender alguma coisa senão a forma mais rápida de levar alguém às lágrimas.
E nisto apagamos. As trevas caem sobre esta febril visão ensombrada por sorrisos de criança e mãos enrugadas, feridas abertas e folhas queimadas, pedaços de história pelo chão dos anos que passam lento demais para lhes darmos valor, mas rápido demais para os lembrarmos. O coração esmorece como uma flor murcha e o silêncio abafada a sua pulsação envergonhada. A escuridão reina.
A nossa dose de ópio chegou ao fim.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Alquimia

Nunca sabemos exactamente quando é que os nossos pulmões vão cuspir o lixo que os obrigamos a ingerir. Nunca sabemos quando é que o nosso coração se vai revoltar por solidariedade aos outros que destroçamos. O nosso corpo segue a alquimia do amor e da sorte.
E o mundo pode ser redondo, mas a vida é quadrada. Mas cedo ou mais tarde, chegamos ao fim e caímos.
Esta imaginação que borbulha sob a pele não encontra as palavras necessárias para descrever a falha essencial que é o sujeito e a causa de toda esta curta mas profunda reflexão. Tomar consciência de algo é como ficar sem ar, asfixiarmo-nos na intensidade arrebatada da descoberta. Por certo é uma metáfora, mas a escrita é uma metáfora, cada palavra que escrevemos é uma metáfora, até esta própria metáfora. A realidade não está nas letras, os sentimentos não estão no papel. O mundo não se escreve — descreve. E para o mostrarmos, para que o imaginemos como é, tão próximo possível do que é, usamos comparações: usamos metáforas.
Isto não significa nada. O significado não está aqui. É tudo físico. Começa no coração, passa pelos pulmões e só depois chega à consciência. A percepção do mundo está nos sentidos, não na razão. E o mundo é nos dado no ar que respiramos. Quando ele falta, a razão é lixo para uma consciência cega da realidade.
E alquimia do nosso corpo entra em reacção química...

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Braga



Palavras para quê?
A Beleza está a nossa frente para a contemplarmos

Vista do Bom Jesus
Fim de semana em Braga

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Epítome

No final, sorrimos enquanto pensamos no trabalho que foi feito. Nas horas gastas com os pequenos detalhes, a escolha minuciosa das palavras, o timbre e o desenho certo das ideias, a estética da razão.
Afinal, depois de tantos dias de calos nos dedos e mãos geladas, a perfeição acontece. Ilusão, mera ilusão. O erro do escritor é pensar que a obra acaba quando se põe o último ponto final.
Não.
Na infantilidade da aprendizagem, nesses primeiros quilómetros artilhados do caminho, julgamos-nos com um orgulho inocente privado de perfeccionismo e de visão crítica. Depois, deixamos assentar as palavras e percebemos que estão todas erradas. Deixamos assentar os discursos e compreendemos que as falas estão todas trocas. Deixamos assentar a história e entendemos que teria sido melhor de outra maneira.
Exactamente como acontece na nossa própria vida.
Então, e ao contrário da nossa própria vida, rescrevê-mo-la. Corrigi-mo-la.
No final, sorrimos enquanto pensamos no trabalho que foi feito. Nas horas bem gastas com as grandes decisões e os pequenos pormenores, a selecção ora aleatória, ora fundamental das palavras, a música contínua das teclas, a paisagem firme das linhas crescentes, a estética da paixão.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Epifania

Quando os medos que se alojam no teu coração gritam mais alto que o teu desejo mudo de os silenciar, a tua alma adoeceu.

Pisamos estradas de calçada irregular, lama suja, pedras afiadas e alcatrão ardente de pés descalços. As feridas são o passar dos anos gravados na pele, as cicatrizes memórias da vida. A dor é um dos mil possíveis resultados da experiência, que é tão somente fruto da coragem. O medo é reservado para os que não vivem, ou para os que não têm coragem de viver.
Todas as histórias são escritas com sangue, lágrimas e suor. A tinta é o sangue negro de uma alma morta que se recusou cruzar as portas da segurança e a provar o mundo, que sabe que por vezes ele é amargo, intragável quase, mas que desconhece que outras vezes pode igualmente ser muito doce.
O espaço reservado para o amor depende inteiramente das fronteiras do ódio. E se amar é fácil, odiar é mais fácil ainda. Porque amar magoa e
odiar não, é preciso coragem para o fazer. E não é maior a loucura dos loucos do que a loucura dos que se deixam
assombrar pelo medo ou arrebatar-se por uma paixão cega. Porque mais loucos ainda, são os que
pensam que podem amar alguém sem antes se amarem a si próprios.
Olhamos para os outros da forma que nos olhamos ao espelho.

Se não puderes sorrir perante o teu reflexo, a tua alma adoeceu.


segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

(des)consolo

Desconsola-me. Há palavras que leio que não fazem sentido, desviam-se do significado que não quero que tenham, encostam-se a uma esperança mais cálida, pintada com cores mais acolhedoras.
Há meias verdades cuja meia mentira é frequentemente ignorada. E depois dói. Arde lá no fundo, desconfortável, como uma comichão da pele. Incomoda muita gente que não consegue dormir, que não consegue escrever, que não consegue fechar a porta ao problema.
Os códigos que regem este nosso mundo são uma coisa demasiado complexa para nós que os inventámos percebermos. Como um poeta que não entende o sentido dos seus versos. Infantil, criar sonhos grandes demais para uma vida tão pequena.
E tudo o que eu queria era ver. Ver por dentro. Nas entranhas do teu coração, ver se bate depressa ou devagar, quando pára, quando se encolhe, quando sangra. Pintá-lo em cada momento, para guardá-lo para a posterioridade, para um dia em que ele não reaja, não me veja. Se não for hoje esse o dia.
Amar é uma oportunidade. Como tudo na vida, tem um prazo de validade. Só que não vem explicitamente expresso.
Há quem se esqueça que os sentimentos mudam. Há quem não perceba que as pessoas crescem. O tempo não é um desfile de dias e meses. É real, físico, concreto. E sente-se da pele aos ossos.
Demasiado tarde, compreendemos que podia ter sido de outra forma.
Demasiado tarde, percebemos que podíamos ter dito outra coisa, feito outra coisa.
Mas se a esperança é verdade, não nos cai ao pés, arrastada pelo vento, lavada pela chuva, seca pelo sol. Há que dar-lhe vida, tomar nas mãos o seu corpo inerte, soprar-lhe nos lábios, inchar-lhe o peito de ar, até bater o seu coração.
É preciso agir. Ser pró-activo.
É preciso querer.
Desconsola-me. Quando não fazemos o que é preciso para merecer essa oportunidade.